Colecionar videogames se tornou algo que, com o tempo, ficou cada vez mais fácil. Claro que, para mim que vos escrevo aqui, o tempo para desfrutá-los é escasso. Há mais ou menos um ano decidi colecionar jogos dos consoles PlayStation 3 e Xbox 360. Hoje é possível encontrar títulos usados desses sistemas por cerca de 25 reais, e não estamos falando de qualquer jogo: GTA V, Dark Souls, Gears of War, entre outros sucessos de seus lançamentos originais. Com preços tão acessíveis, bateu aquela vontade de me deleitar com os games, jogá-los e finalmente conhecer muitos que, na época, passaram batido por mim. Poderia citar dezenas de exemplos, mas a ideia desta matéria é compartilhar alguns relatos que surgiram durante essa jornada.

Os jogos continuam incríveis, trazendo histórias novas e diferentes formas de diversão. Porém, para quem coleciona, tanto a geração atual quanto a anterior representam uma decepção no quesito “itens que acompanham os games”. Quando comprei um PlayStation 3, esperava encontrar catálogos, folhetos e até o tradicional manual. Mas a decepção foi grande: apenas o manual, um certificado e os plásticos que envolviam o console e os controles. Nem parecia a primeira vez em que abri a caixa do meu Atari, recheada de papéis, catálogos, manuais e aquele cheiro de papelão que só quem viveu sabe. Aliás, já reparou que os consoles atuais não têm mais aquele cheirinho marcante? Eu sei que você já deu aquela fungada na caixa do seu console ou jogo recém-aberto… Quem nunca?

Com os jogos, pensei que poderia ser diferente, mas a frustração também foi grande. Alguns sequer trazem manual físico, já que ele aparece apenas em formato digital nos menus do próprio game. Mesmo quando existe, muitas vezes é bem simples. Um bom exemplo é Demon’s Souls: o manual traz apenas o básico — movimentos possíveis e alguns itens — sem detalhar quase nada da história. Talvez isso tenha sido proposital, uma escolha de Hidetaka Miyazaki, já que o jogo guarda segredos que poderiam perder o impacto se fossem explicados logo de início. Em contrapartida, basta lembrar de The Legend of Zelda: A Link to the Past, de Shigeru Miyamoto, no Super Nintendo. Seu manual vinha repleto de informações: contextualização da história, descrição de todos os itens, mapas e dicas valiosas, sem jamais tirar o brilho do jogo. Pelo contrário, era uma mão na roda para superar enrascadas, complementando a trilha sonora marcante e os gráficos impressionantes para a época. Sem contar os folhetos extras com futuros lançamentos, o telefone da Power Line e até a lista de assistências técnicas disponíveis. Tudo isso dentro de um único cartucho! Hoje, o futuro parece muito mais espartano, já que cada vez menos itens vêm junto com os games.

Por outro lado, as edições de colecionador ainda oferecem aquela sensação de “caixa cheia”. Recheadas de folhetos, CDs de trilha sonora, miniaturas e artes originais, elas se tornam verdadeiros tesouros para quem valoriza esse tipo de experiência. Um bom exemplo é a excelente edição de colecionador de Diablo III, que trouxe todos esses elementos, além de bônus virtuais para os jogadores. Mas aí surge a dúvida: não seria essa apenas uma estratégia comercial? Sob o discurso de “redução de papel” e de empresas mais verdes, vemos versões simples cada vez mais pobres em conteúdo, enquanto as edições de colecionador chegam caríssimas e limitadas. Para se ter uma ideia, Diablo III no lançamento custava R$ 99 em sua versão comum, enquanto a edição de colecionador saía por R$ 300 — vendida em lojas como a Saraiva, que participou do lançamento mundial. Era tanta procura que até senha distribuíam para controlar as vendas, e muita gente levava esposa ou namorada só para conseguir uma segunda cópia para revenda. Hoje, essa mesma caixa aparece em sites de leilão por R$ 799. Será mesmo que tudo isso é apenas cuidado com o meio ambiente, ou as empresas descobriram uma nova forma de lucrar duas vezes?

Pesquisando na internet, não encontrei nada muito sólido além de alguns sites mencionando acordos com o Greenpeace para reduzir o uso de papel e a certificação ISO 14001, uma norma brasileira da ABNT voltada para gestão ambiental. Ainda assim, uma coisa é certa: muita coisa mudou para quem coleciona videogames. A sensação de abrir uma caixa e encontrar aqueles papeizinhos coloridos, os manuais detalhados e os extras que enchiam os olhos praticamente desapareceu. Então, se você ainda guarda jogos antigos, corra até sua estante, abra um deles e dê aquela fungada nostálgica — aposto que vai voltar no tempo só com o cheiro.







