Diário de um Jogador #9 Avenida Robert Kennedy

Como falei anteriormente, a jornada apenas começou. Com meu interesse explodindo para conhecer cada vez mais jogos, comecei a fazer uns rolês pelo bairro e, sim, ainda falo do Jardim Real lá na Praia Grande, que pra mim foi a MECA dos fliperamas. Bem, como pipa, balão, bola e qualquer outra coisa não me interessava, minha pegada virou achar mais alguém no condomínio além do Gaúcho, não porque estava cansado ou enjoado dos jogos, mas porque conhecer jogos novos me parecia uma coisa incrível na época, era sempre um desafio novo – lembrando que os jogos naquela época não eram incríveis, então era mais a questão da novidade. Como falei e qualquer um sabe hoje, os gráficos do ATARI eram bem similares, mas a coisa fica muito na mente com aquelas capas incríveis, mas vamos manter o foco.

As capas dos jogos eram lindas e vibrantes, diferentes algumas vezes dos jogos que elas representavam

Saí atrás de outra casa ali no condomínio que tivesse um ATARI ou qualquer outro console, mas sem sucesso, claro que conheci algumas crianças da minha idade e ia xeretando e entrando nas casas que suspeitava que o barulho era de videogame. Teve uma vez que literalmente entrei na casa e não tinha console, o som era do programa RATIMBUM que estava passando na TV e eles usavam muitos samples de games pra época. Mas lembro da senhora que estava na cozinha, ela me perguntou quem era e falei de qual casa eu era e ela me serviu biscoito e leite e fiquei vendo o programa com o filho dela, que era mais novo que eu. Alguns vão dizer, “poh Celso por que você não assistia na sua casa?” Primeiro porque a TV da minha casa não saía da Globo por nada, meu pai via o jornal, minha mãe e avó o “Vale a pena ver de novo”, depois tinha mais jornal e a novela das 6 e das 9, tudo na sequência. E pelo que me recordo, a TV CULTURA não pegava bem em casa. Tudo culpa daquelas caixinhas UHF que tínhamos que usar, era a maldição da baixada, ver TV com tudo chuviscado.

Amor e ódio por essa caixinha maledeta

Mas como percebi que ali no condomínio eu não ia dar sorte, revolvi seguir a avenida da Praia e tanto andando em direção ao Caiçara como em direção a Mongaguá não tive sorte. Também, pudera, no máximo andava uns 10 quarteirões apenas e ficava com medo de me perder (eu tinha entre 10/11 anos). Aí voltei minha atenção para a avenida Kennedy, onde um fliperama já era do meu conhecimento, aquele do lado da Pizzaria, mas ali já não tinha novidades. Então resolvi seguir para o sentido Caiçara e depois de um quarteirão, olhando para dentro de todos estabelecimentos, vi que num barzinho… Tinha que ser um buteco né! Lá estava uma maquina, lá no fundo do bar, e claro, já fui entrando e notei que tinha um cara mais velho que eu e um outro garoto já encostados na dita cuja que já me deu um espanto ao ver que o jogo estava começando. E deixa eu relatar o que vi e vocês tentam descobrir aí:

Que jogo será, hein?

Um carinha deitado com uma mulher perto de uma lápide quando aparece um demônio que sequestra a mulher e o carinha, que aparentemente estava de cueca, veste uma armadura e sai jogando lanças em zumbis que brotam do solo. Não deve ter sido difícil descobrir né? GHOSTS´N GOBLINS estava lá em toda sua grandiosidade e, claro, para o triste fim do meu dinheiro que carregava no bolso, mas não antes de pedir uma GINI lá no balcão e ver que o carinha que estava jogando era muito bom, pois eu não conseguia chegar nem no RED ARREMER ou o diabinho que já fica ali no final do primeiro segmento da primeira fase. E só prestando bastante atenção no que ele fazia, comecei a ficar melhor e como eu sempre fui meio extrovertido, logo fazia perguntas para o rapaz sobre o jogo e ele respondia e ajudava como podia. É uma pena, mas não lembro do nome dele, só sei que era irmão do Alisson, um carinha que morava ali na baixada, mas que depois por alguma razão que não me lembro se mudou e nunca mais o vi.

Grande facilitador em esvaziar bolsos na década de 80

Mas lembro que boa parte do dinheiro que tinha eu dedicava àquele jogo, que era genial, difícil e que me fazia querer dominá-lo de qualquer forma. Depois de aprender os esquemas de não ficar moscando e matar o diabinho vermelho rapidinho dando toques para frente enquanto jogava as lanças, parti para a segunda fase, que começava com aqueles cavaleiros de escudo que só morriam sendo atingidos pelas costas, mas era moleza desviar sabendo o padrão, depois tinha os sacos voadores (era como eu chamava… hahaha). Matar o primeiro chefão, um Troll que dava uns pulos e lançava uma bola de fogo nem foi tão complicado vendo o cara matá-lo. Mas foram algumas semanas jogando todo dia para vencer esse desafio que era apenas a primeira fase do jogo.

Saco voador e o chefão juntos, sinal que vai dar GAME OVER

E, claro, tem mais no próximo diário, mais fliperamas, jogos e experiências de quem viveu na pele a fantástica mudança nos jogos pela década de 80.

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  • Jorge Miashike

    Ótima história.

    • celsoaffini

      Valeu Jorge!