Diário de um Jogador #6 Sem Saída

Bem, já situei bastante como era minha rua, mas houve mais mudanças. Essa rua era uma ligação entre bairros, então passava ônibus, tinha um fluxo grande, mas um pouco antes de eu relatar os acontecimentos da matéria passada, as coisas mudaram e a rua se tornou sem saída, com uma rotatória no final para os carros fazerem a volta. Um tipo de pracinha. Foi aí que comecei a ser praticamente colocado para fora de casa pela minha mãe para interagir com as crianças da rua… que, como sabemos, agora todos eram adolescentes. E lógico que quando não se tratava de videogame, a coisa era meio complicada.

Em várias oportunidades, todos, até as garotas, paravam tudo só para me zuar. Não que eu guarde rancor até hoje, mas a gente não esquece certas coisas, ainda mais quando te marcam negativamente. Lembro de duas ocasiões, a primeira foi quando o pessoal de algumas casas colocavam uma rede de vôlei na rua para jogar e, claro, todos queriam participar e logo fui eu também para jogar. Porém, parece que o pessoal resolveu cortar todas as bolas em mim, até que um dos garotos acertasse minha cara, me fazendo cair. E uma segunda ocasião foi numa festa junina que rolava na rua, todos levavam algum doce ou salgado, refrigerantes e até rolava fogueira e lembro que no finalzinho, quando a fogueira já estava sem fogo em si, o pessoal começou a pular e, lógico, fui atrás e uma das garotas assim que pulou, parou, me fazendo bater nas costas dela e obviamente cair sentado na brasa.

Imagem relacionada

Ainda bem que o fogo não estava tão alto assim

Exigi uma satisfação dos pais dela que ali estavam e dela mesmo, exigindo desculpas senão nunca mais falaria com ninguém ali. Bem, posso dizer que até hoje nunca mais falei com ninguém, algumas dessas pessoas ainda moram aqui, mas continuo mantendo minha posição. Porém, não é só de lembranças negativas que essa rua é feita. Existia mais uma garota na rua e essa tinha minha idade. A conheci quase que ao mesmo tempo que essa galerinha, mas a diferença era que o papo fluía diferente e o melhor: ela tinha um ATARI e gostava muito também. Ela chegou a vir aqui em casa jogar comigo e adorava jogar COMBAT e BREAKOUT, pois ela se saía melhor do que eu. E só atualmente vim saber que as mulheres têm mais habilidade com esse tipo de jogo: PONG mesmo em sua época de lançamento foi um sucesso entra as mulheres pois no HAPPY HOUR elas davam aquele courinho nos marmanjos.

Claro, eu também ia jogar na casa dela, ela tinha POLE POSITON e ASTEROIDS, nos quais eu é que me saía melhor e lembro que a gente jogava, ria muito com os erros um do outro e uma coisa que sempre me vem à mente quando lembro dela é o achocolatado BROWN COW. Vocês não se lembram? Era um achocolatado líquido que acho que chegou a ser refabricado, mas sumiu de novo do mercado. Mas o que não esqueço é que ela colocava no pão francês e a partir dali comecei a fazer igual, uma memória que considero super legal, pois CHOCO BROW como muitos chamavam na época e ATARI era algo que ficava muito bem juntos.

Resultado de imagem para brown cow achocolatado liquido

Só quem viveu na época experimentou essa delícia 

Então, pelo menos eu tinha uma amiga, alguém que pelo menos não me zuava ou me fazia de bobo para seu bel prazer e melhor de tudo: jogava aquele console que considerava meu melhor amigo, hipoteticamente. Então, um certo dia, fui até a casa dela chamar para andar de bicicleta e a mãe dela, acho, me disse que ela não estava. Voltei no outro dia e me disseram o mesmo, voltei no dia seguinte com um jogo que ela tinha me emprestado e a resposta continuava a mesma e a pessoa não teve nem o interesse de pegar a fita de volta, mesmo falando que era dela. Mas tem um detalhe que vocês devem ter percebido, eu não falei seu nome, claro que os que me causaram certo desconforto eu não mencionarei os nomes, para evitar qualquer tipo de problema, mas não teria problema em dizer o nome dessa garota, porém, sinceramente eu não me lembro. Eu não sei se eu sentia algo por ela que depois que ela sumiu, eu me obriguei a esquecê-la por estar sofrendo com tudo aquilo que senti.

Até hoje, me esforço para lembrar seu nome, como eu me prontifiquei a não falar mais com ninguém daquela época que morava na rua eu não tenho para quem perguntar. Um preço a se pagar por essa minha decisão, mas não esqueço das risadas que dávamos, nem das jogatinas que ela ganhava nem de seus olhos verdes. Vai saber se ela foi meu primeiro amor, um amor platônico eu sei, pois não era nada além de uma belíssima amizade e que me fez muita falta pelos anos que vieram depois desse.

Você pode gostar...

  • Passei por situações parecidas. Celso, eu só n entendi pq ela sumiu… Vc nunca soube pq os pais dela diziam que ela n estava?

    Obs: vc guardou a fita que era dela né?rsrs

    Grande abs

    • celsoaffini

      Pelo que você já me falou foi a questão do Bullying né? Então até hoje eu não sei por quê, talvez separação dos pais ou algo do tipo… Mas essa história não acabou, daqui algum tempo vou contar mais sobre essa história.

      Pior que guardei sim… A ASTEROIDS está comigo até hoje!

  • CloudStrifer

    Boa história, mulheres são ainda mais apegadas com essas lembranças, ela deve se lembrar de você também quando vê um vídeo game, espero que se lembre do nome dela ou até a reveja.

    • celsoaffini

      Será? Acho difícil de eu lembrar se eu pergunta-se ao vizinhos e tal quem sabe eu saberia.

  • Santana

    Bacana, esse tipo de história dói de lembrar, contatos perdidos, tenho uma parecida mas não teria essa coragem de postar hahaha abss (Plinio)

    • celsoaffini

      E por isso que posto, pois muita gente prefere não lembrar disso, mas videogames não são só flores ainda tem muito mais depre por vir, além de coisas fantásticas que vivi.

  • É eu sei bem com é um pouco disso… Chegava na casa desses “amigos” entravam todos, menos eu… Meu destino era ficar olhando na janela a jogatina de Atari acontecer… As duas vezes que pedi para entrar as repostas foram: 1- Tem gente demais aqui dentro 2- Já vamos desligar o vg. Nunca entendi… Ainda hoje me lembro da irmã deles dizendo: Ah… Lá vem o Dedeco… Eu apenas chegará próximo a janela… Naquele dia voltei… Até uma época atrás eu ainda seguia eles pelo face… Depois resolvi mandar todos para a casa do cace… Hoje tenho meu Hyperspin!!!

    • celsoaffini

      Uma das coisas que temos que entender e que crianças e adolescentes são ruins… Se eles podem pisar em alguém para se sentir melhor eles o farão, sempre foi assim… Somos humanos.

      • Verdade! Essa cambada não tem coração! kkkkkkkkkk

  • Gustavo P. Lima

    Na próxima festa tinha q pular dando cotovelada se alguém parasse na frente

    • celsoaffini

      Não participei de mais nada depois desse dia na rua.

  • Poeira Jogos

    Muito bom ler algo assim Celso, da mesma forma que cria uma boa lembrança, e faz um paralelo com oque vivi também na época, não quero me alongar, no entanto tenho certeza q essa guria sem nome também sentiu muito sua falta na época

    • celsoaffini

      Que bom que gostou Issui é complicado colocar isso em vídeo então escrevendo flui melhor. E não precisa contar se não quiser, mas todos viveram algo semelhante e isso é algo que nunca vou saber.

  • Bruno Auriema

    Brown Cow era MUITO bom haha! Eu costumava colocar no sorvete.
    E essas lembranças doces e amargas dos videogames… tb tenho algumas ótimas e outras horríveis, mas todas elas foram importantes de alguma forma, pois ajudaram a formar meu caráter. Ansioso pela continuação!

    • celsoaffini

      Eu também colocava, quem é que não punha… hahaha. Mas no pão aprendi com ela.

      Sim, tenho muitas mais como essas, mas tudo tem esse gosto doce e azedo… E videogames não seria diferente, fez parte da vida de muitos.

      Valeu mesmo Vudú, vai ter muitas continuações ainda!

  • Gustavo Pessanha

    Legal essa estória Celso, mas não me identifico como a maioria dos que comentaram, minha infância foi completamente diferente, meu pai se mandou de casa bem cedo e fiquei com minha mãe que era super liberal, minha sala tava sempre cheia de moleques jogando atari, eu não sofria Bullying, e sim aplicava Bullying, eu era terrível, hoje entendo que eu era um perfeito babaca e vendo depoimentos como esse seu me faz pensar se não existe gente magoada comigo até hoje, mas diz aí. Se sua mãe tava praticamente te empurrando pra rua pra brincar e fazer amigos, como ela reagiu depois desse dia? ela aceitou de boa você desistir de sair? ela soube de toda situação com detalhes?

    • celsoaffini

      Realmente não acho que todos vivenciaram o mesmo, porém o que você comenta no final… Minha mãe soube em partes, por quê não tinha como resolver e lembrando eu ouvi muito:

      “Engole o choro, por quê você é homem”

      O que estou contando aqui em partes e quase como uma confissão, boa parte do que ainda está por vir e do que já contei, ninguém sabe ou sabia, talvez pessoas mais próximas imaginavam algo, mas tem muita coisa que vou colocar pra fora pela primeira vez.

  • Jorge Miashike

    Caraca Celso, ver essa história em texto é tão legal quanto ouvir você contá-la. Lendo-a me identifiquei bastante e acabei me lembrando de algo, eu também tinha uma amiga que ia em casa jogar Atari, uma vizinha loirinha de olhos verdes, mas que perdi contato depois que me mudei. Parabéns pelo ótimo texto.

    • celsoaffini

      Olha só hein Jorge… Vivemos algo semelhante e acredito que muitos também devem ter vivido algo assim. Valeu mesmo meu amigo!

  • Excelente texto Celso! Eu já tinha lido sua história, mas precisei de um tempo para me recompor e comentar, pois sua história mexeu comigo. Na minha adolescência, eu só tive colegas de escola. Eu só via eles na escola. Eu também sofri bullying. Eu sempre fui muito tímida e reservada. Eu consigo imaginar o que você sentiu, da sua amiga ter parado de falar contigo do nada; já que vocês eram próximos. Eu sei muito bem como adolescentes agem, todos nós já fomos um dia. Pode ter sido por fofoquinhas que ela se afastou, mas eu não vou julgá-la, só sei que, se fosse eu, eu jamais faria isso com um cara tão legal como você. Ela perdeu uma amizade valiosa. Eu acho que um dia, você irá reencontrá-la e mesmo que isso não aconteça, eu sinto que ela deve se lembrar de você. Eu lembro que quando eu era criança, eu tive uma paixão platônica por um garoto da escola. Era um sentimento puro. Passaram-se uns 12 anos, e ele me reencontrou por e-mail…Eu tinha escrito para um site de reencontros de colegas de escola, a procura da minha professora, (tô falando sério rs) mas jamais pensei que alguém iria me procurar. kk Bom, eu pensava que ele não se lembrava mais de mim. Foi uma surpresa. Enquanto há vida, há esperança né? Hehe

    • celsoaffini

      Quem não sofreu bullying? Mas cada um enfrentou e reagiu de uma forma diferente, eu apenas me fechei. Mas não foi isso não, na verdade eu sei o que houve, mas tem que ficar para um pouco mais pra frente. Pois a história minha e dela ainda não acabou.

  • Hermeto Filho

    Olá Celso! Parabéns pelo excelente texto. Identifiquei-me muito com o seu depoimento. Praticamente vivi toda a minha infância sem amizades, ainda mais sendo filho único. As únicas pessoas que eram mais próximas a mim eram os meus primos. Forte abraço!

    • celsoaffini

      Eu também passei por isso… Tem um primo meu que era o meu melhor amigo também. Outro pra você!