Diário de um Jogador #4 Furtou, agora passe vergonha!

Depois de bancar o espertão, corri para o fliperama e, sei lá, acho que todos que fazem isso, que tentam se dar bem de alguma forma, se sentem inatingíveis e eu senti que nada ia acontecer, claro que nem imaginei as consequências: quem é que imagina na hora de jogar um fliperama? Pois bem, cheguei lá no fliperama e praticamente as máquinas viravam para mim e diziam: “ME JOGUE”… Era hipnotizante! Claro, já cheguei no balcão que ficava no fundo da loja e coloquei a nota pela entrada, era um daqueles balcões fechados, e falei: Quantas fichas dá?

E como havia falado né… se com 100 cruzeiros rolavam 5 fichas, com 1000 passou de 50, pois a tiazinha até falou: “Você quer tudo em ficha mesmo?” e claro que respondi: “SIM EU QUERO SIM” e pensando hoje, soa engraçado esse desespero. Meus bolsos ficaram cheios, fazendo aquele barulho que alguns moleques que ali estavam reconheciam e perguntavam: “Você tem ficha ai?” e como um generoso jogador sai dando ficha para quem pediu. E depois já corri para meu jogo preferido da época NEW RALLY X e passei a jogar. Claro que alguns dos moleques já se tornaram meus amigos na mesma hora. O que uma ficha não fazia dentro de um fliperama?

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Roubar para jogar isso? Sim…

Claro, me perdi no tempo, parecia que eu estava a dias por lá, jogando aqueles jogos incríveis, recebendo atenção de outras crianças e – óbvio – nem lembrando do que tinha feito, mas depois de um tempo eu olhei para a porta e vi ali meu tio e meu pai olhando para mim. Larguei o jogo e fui lá já pensando no pior, pois o olhar deles indicavam um desgosto muito grande. Meu pai não falou muito, só perguntou: “Aonde está o dinheiro?” e eu falei que tinha comprado tudo em ficha… Ele virou e disse: ”Se vira, pega as fichas e troca pelo dinheiro”. Nossa, que vergonha que senti, cheguei a pedir algumas fichas de volta, já que dei mais de uma para algumas pessoas e apenas poucos devolveram. Com todas elas na mão, fui até o balcão e – empurrando todas elas – já fui pedindo: “Tia, troca essas fichas aqui?”. A mulher surpresa perguntou por quê e, meio cabisbaixo, olhei para a porta e lá ela pôde ver meu pai e meu tio na porta com aquela cara que a fez pegar as fichas e devolver em torno de 750 cruzeiros.

Sim, não deu para jogar tanto quanto eu gostaria e na minha tentativa de fazer amigos, mesmo que não me lembre a real intenção da época, acredito que fiz aquilo para chamar atenção e ser aceito e quem sabe relembrado depois. De qualquer forma, senti um constrangimento indescritível, acho que as palavras que uso agora não seriam suficientes para explicar como me senti. A vergonha de todos notarem que aquilo que fiz foi baseado em algo errado, que eu nem tentei me justificar e principalmente o olhar do meu pai e do meu tio, aquele que mostra o quanto estão decepcionados com vocês. Bem, um dos meninos ali se despediu de mim: lembre-se dele.

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E quem não fez amizades no Fliperama?

Depois, andei lentamente até em casa, meu pai não disse uma palavra e meu tio foi dando aquele velho e bom sermão sobre como é errado pegar dinheiro. E isso agora eu não lembrava, portanto fui à fonte, perguntei ao meu velho pai se ele tinha me batido, eu sinceramente, não lembrava disso, mas ele me deu o positivo para tal. E ele lembrava que não disse nada e que foram três cintadas enquanto eu estava encurralado entre os beliches no quarto. Mas não tem o que reclamar disso, eu mereci mesmo e já digo… CRIANÇAS, NUNCA PEGUEM DINHEIRO DO PAI DE VOCÊS PARA JOGAR FLIPERAMA. Se bem que hoje em dia esse conselho não é tão válido, pois os fliperamas a muito deixaram de existir.

Lembro que chegamos numa sexta à noite, então isso era domingo e meu pai teria que subir no máximo terça, então fiquei meio que sob o olhar vigilante dos dois adultos presentes, apenas saindo para almoçar e jantar e nem sair do condomínio eu pude sair. Não me lembro de mais conversas, pois ainda sentia aquela vergonha e, claro, quando finalmente voltamos para São Paulo, meu pai contou o ocorrido para minha mãe, que primeiro me bateu com uma sandália e depois me abraçou. Minha mãe sempre fazia isso comigo, jeito estranho de me dar um corretivo, mas era dela que eu sentia medo de verdade.

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Medo mesmo era da minha mãe

Agora eu vou ficando por aqui. Até a próxima ida até a Praia Grande, pois a partir de agora por um longo tempo esse foi o lugar pelo qual os fliperamas e os jogos entraram na minha vida.

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  • Bruno Lima

    Ótimo texto Celso ! além de você escrever muito bem, são lembranças muito ingressantes! no aguardo da próxima.

    • celsoaffini

      Obrigado Bruno… Eu ainda acho que poderia melhorar na escrita, mas com o tempo com certeza eu conseguirei.

  • Bruno Auriema

    Quem nunca né? Eu tive uma história parecida mas a lição da minha mãe foi diferente. Eu, no início, pra satisfazer meu vício, pedia dinheiro pra minha avó pra comprar salgadinhos. Mas claro, não comprava e ia direto no fliper. Na volta simplesmente dizia que tinha comido o salgadinho no caminho.

    Depois de um tempo a vontade ia ficando cada vez maior, e na época lembro que ganhávamos uma pequena mesada dos meus pais… a minha eu torrava praticamente na primeira semana, entre fliperamas e guloseimas, e depois ficava duro e desesperado. Aí, no auge do desespero, comecei a pegar dinheiro das minhas irmãs… no começo era fácil, só ir na mochila da escola delas e pegar um pouco aqui e outro ali. Eu nunca pegava tudo, no começo era uma moeda pra jogar uma fichinha, mas com o tempo comecei a pegar mais e mais… uma vez lembro que peguei dinheiro de uma delas o suficiente pra jogar umas 15 fichas! Não sei quanto era mas com certeza era um dinheirão. Nesse dia até lembro que chamei um amigo pra ir comigo no fliper pra jogarmos Final Fight até o fim.

    Com o passar do tempo elas começaram a desconfiar e passaram a esconder a grana, mas eu sempre achava! Como nunca tinha sido pego e elas nunca falavam nada, eu achava que não tinham percebido e não sentia tanto remorso assim.

    Até que um dia uma delas me pegou no pulo mexendo nas coisas dela…eu dei uma desculpa esfarrapada e ela fingiu que acreditou, mas sei que ela sabia que eu tava tentando achar o dinheiro dela. Fiquei com o cú na mão dela me caguetar pra minha mãe e eu apanhar, mas nada aconteceu. Achei que tinha escapado.

    No mês seguinte, elas me deram o troco com juros e correção. Recebemos a mesada como todo mês, eu guardei a minha no lugar de sempre e fui dormir. No dia seguinte fui pegar meu dinheiro todo feliz pra torrar, e ele não estava lá. Sumiu! Eu nem por um segundo achei que elas tinham pego, pois nunca tinham feito isso. Comecei a procurar na casa inteira, e como não achei, me desabei a chorar… de noite falei pra minha mãe que meu dinheiro tinha sumido e ela simplesmente disse: “pois é… aparentemente anda sumindo dinheiro aqui em casa, dessa vez foi o seu…”

    Imediatamente entendi o que tinha acontecido. Minhas irmãs e minha mãe simplesmente planejaram fazer comigo o que eu fazia com elas. E na hora aprendi a lição. Não disse uma palavra e aceitei o que houve. A sensação horrível de procurar meu dinheiro e não encontrar, a frustração que senti etc é algo que jamais esqueci. Nem preciso dizer que NUNCA mais peguei um centavo sequer de ninguém, e simplesmente aceitava qdo não tinha grana pra jogar fliperama!

    Hj em dia agradeço muito minha família por esses exemplos. Com certeza me tornei uma pessoa melhor depois disso.

  • Bruno Auriema

    Celso eu tinha escrito um textão aqui contando uma história parecida que aconteceu comigo, mas foi excluido como spam? Será que foi pelo excesso de caracteres? :/

    • celsoaffini

      Talvez você não escreveu usando o DISQUS e ai essas mensagens não entram nem na caixa de SPAM. mas vou verificar no painel de controle do site!

      • Tentei comentar com meu account do Disqus. Vamos ver se agora vai 🙂

  • Bruno Auriema

    Vou dividir o texto em 3 partes pra não ficar tão grande:
    [1/3]
    Quem nunca né? Eu tive uma história parecida mas a lição da minha mãe foi diferente. Eu, no início, pra satisfazer meu vício, pedia dinheiro pra minha avó pra comprar salgadinhos. Mas claro, não comprava e ia direto no fliper. Na volta simplesmente dizia que tinha comido o salgadinho no caminho.
    Depois de um tempo a vontade ia ficando cada vez maior, e na época lembro que ganhávamos uma pequena mesada dos meus pais… a minha eu torrava praticamente na primeira semana, entre fliperamas e guloseimas, e depois ficava duro e desesperado. Aí, no auge do desespero, comecei a pegar dinheiro das minhas irmãs… no começo era fácil, só ir na mochila da escola delas e pegar um pouco aqui e outro ali. Eu nunca pegava tudo, no começo era uma moeda pra jogar uma fichinha, mas com o tempo comecei a pegar mais e mais… uma vez lembro que peguei dinheiro de uma delas o suficiente pra jogar umas 15 fichas! Não sei quanto era mas com certeza era um dinheirão. Nesse dia até lembro que chamei um amigo pra ir comigo no fliper pra jogarmos Final Fight até o fim.

  • Bruno Auriema

    [2/3]
    Com o passar do tempo elas começaram a desconfiar e passaram a esconder a grana, mas eu sempre achava! Como nunca tinha sido pego e elas nunca falavam nada, eu achava que não tinham percebido e não sentia tanto remorso assim.
    Até que um dia uma delas me pegou no pulo mexendo nas coisas dela…eu dei uma desculpa esfarrapada e ela fingiu que acreditou, mas sei que ela sabia que eu tava tentando achar o dinheiro dela. Fiquei com o cú na mão dela me caguetar pra minha mãe e eu apanhar, mas nada aconteceu. Achei que tinha escapado.

  • Bruno Auriema

    [3/3]
    No mês seguinte, elas me deram o troco com juros e correção. Recebemos a mesada como todo mês, eu guardei a minha no lugar de sempre e fui dormir. No dia seguinte fui pegar meu dinheiro todo feliz pra torrar, e ele não estava lá. Sumiu! Eu nem por um segundo achei que elas tinham pego, pois nunca tinham feito isso. Comecei a procurar na casa inteira, e como não achei, me desabei a chorar… de noite falei pra minha mãe que meu dinheiro tinha sumido e ela simplesmente disse: “pois é… aparentemente anda sumindo dinheiro aqui em casa, dessa vez foi o seu…”
    Imediatamente entendi o que tinha acontecido. Minhas irmãs e minha mãe simplesmente planejaram fazer comigo o que eu fazia com elas. E na hora aprendi a lição. Não disse uma palavra e aceitei o que houve. A sensação horrível de procurar meu dinheiro e não encontrar, a frustração que senti etc é algo que jamais esqueci. Nem preciso dizer que NUNCA mais peguei um centavo sequer de ninguém, e simplesmente aceitava qdo não tinha grana pra jogar fliperama!
    Hj em dia agradeço muito minha família por esses exemplos. Com certeza me tornei uma pessoa melhor depois disso.

  • Quem nunca né? Eu tive uma história parecida mas a lição da minha mãe foi diferente. Eu, no início, pra satisfazer meu vício, pedia dinheiro pra minha avó pra comprar salgadinhos. Mas claro, não comprava e ia direto no fliper. Na volta simplesmente dizia que tinha comido o salgadinho no caminho.
    Depois de um tempo a vontade ia ficando cada vez maior, e na época lembro que ganhávamos uma pequena mesada dos meus pais… a minha eu torrava praticamente na primeira semana, entre fliperamas e guloseimas, e depois ficava duro e desesperado. Aí, no auge do desespero, comecei a pegar dinheiro das minhas irmãs… no começo era fácil, só ir na mochila da escola delas e pegar um pouco aqui e outro ali. Eu nunca pegava tudo, no começo era uma moeda pra jogar uma fichinha, mas com o tempo comecei a pegar mais e mais… uma vez lembro que peguei dinheiro de uma delas o suficiente pra jogar umas 15 fichas! Não sei quanto era mas com certeza era um dinheirão. Nesse dia até lembro que chamei um amigo pra ir comigo no fliper pra jogarmos Final Fight até o fim.
    Com o passar do tempo elas começaram a desconfiar e passaram a esconder a grana, mas eu sempre achava! Como nunca tinha sido pego e elas nunca falavam nada, eu achava que não tinham percebido e não sentia tanto remorso assim.
    Até que um dia uma delas me pegou no pulo mexendo nas coisas dela…eu dei uma desculpa esfarrapada e ela fingiu que acreditou, mas sei que ela sabia que eu tava tentando achar o dinheiro dela. Fiquei com o cú na mão dela me caguetar pra minha mãe e eu apanhar, mas nada aconteceu. Achei que tinha escapado.
    No mês seguinte, elas me deram o troco com juros e correção. Recebemos a mesada como todo mês, eu guardei a minha no lugar de sempre e fui dormir. No dia seguinte fui pegar meu dinheiro todo feliz pra torrar, e ele não estava lá. Sumiu! Eu nem por um segundo achei que elas tinham pego, pois nunca tinham feito isso. Comecei a procurar na casa inteira, e como não achei, me desabei a chorar… de noite falei pra minha mãe que meu dinheiro tinha sumido e ela simplesmente disse: “pois é… aparentemente anda sumindo dinheiro aqui em casa, dessa vez foi o seu…”
    Imediatamente entendi o que tinha acontecido. Minhas irmãs e minha mãe simplesmente planejaram fazer comigo o que eu fazia com elas. E na hora aprendi a lição. Não disse uma palavra e aceitei o que houve. A sensação horrível de procurar meu dinheiro e não encontrar, a frustração que senti etc é algo que jamais esqueci. Nem preciso dizer que NUNCA mais peguei um centavo sequer de ninguém, e simplesmente aceitava qdo não tinha grana pra jogar fliperama!
    Hj em dia agradeço muito minha família por esses exemplos. Com certeza me tornei uma pessoa melhor depois disso.

    • celsoaffini

      Quem nunca… hahaha. E ai que mora o perigo, pois começamos a associar a facilidade de pegar a grana e jogar. E caraca hein… Essa ai foi a lição mestre mesmo, doí nos outros agora vai doer em você… Caracoles, sua mãe foi mestra em te dar aquela lição hein Vudú.

      Com certeza, mesmo comentando o erro anterior, a gente nota aonde errou e se conscientiza de uma forma que nos marca para sempre. Que história legal meu amigo. Muito obrigado por compartilhar aqui conosco.

  • Dinho Corleone

    Ótimo texto Celso

    Eu lembro uma vez que eu fiz algo parecido q foi pegar os finados vale transporte da minha mãe q trabalhava na época e eu praticamente gastei todo o dinheiro dela ir trabalhar o mês inteiro.
    Eu ate lembro q junto dos vales estavam tb o salario dela numa gaveta no quarto dos meus pais e então eu achava q pegar o dinheiro ia ser roubo. Mau eu sabia que pegar os vales tb era a mesma coisa que roubo rs.

    To gostando bastante do seu conteúdo no youtube e agora os podcasts e achei bem legal estando no começo.

    Eu tb tenho um podcast de cinema e games a 5 anos e conheci seu trabalho por causa do Leandro Valina que é amigo meu tb.

    Abraço cara

    • celsoaffini

      As vezes não calculamos o tamanho do problema que podemos causar… Mesmo que saibamos que no fundo era errado, justificamos internamente de alguma forma.

      Valeu mesmo Dinho, tenho feito um trabalho diferenciado agora, como as LIVE´s não me deram o retorno que eu esperava agora estou dando toda minha atenção ao site e esse tipo de conteúdo.

      Depois eu dou um abraço no Leandro por isso… Muito obrigado!

      • Dinho Corleone

        Eu gosto de ver suas live´s e acho bem legal as pautas com temas focando mais nas memorias e qualquer dia queria ver se vc toparia gravar com a gente?
        Seria bacana 🙂

        • celsoaffini

          Claro é só mandar o convite e claro com antecedência e não consigo gravar de segunda e quarta.

  • Fabiano Alves

    Ótimo texto Celso,eu usava a grana da passagem de ônibus,quando ia para Biblioteca para fazer trabalho com os amigos,a passagem era 1,00 centavos em 1996 se não me engano,e eu passava por debaixo da catraca kkkkkkkkkkk!

    • celsoaffini

      Mas ai você tava roubando de você mesmo…

  • Excelente texto Celso. Eu imagino a vergonha que você sentiu. Ainda mais tendo que pedir as fichas de volta dos moleques. Eu sei bem como é querer se enturmar.Ainda mais quando éramos crianças. O importante é que seus pais lhe ensinaram o que é certo.
    Minha mãe, nunca me deu chinelada quando eu fazia algo errado. Como mentir. O castigo ficava por conta do meu pai que vinha com a cinta. Haha Aí já viu, mãe de coração mole vê o filho chorando, fica com dó né? rs
    Continue escrevendo. Seu diário esta cada vez melhor!

    • celsoaffini

      O mais importante foi isso… Eu já não tive essa sorte, fui espancado com tudo que estava a mão em uma casa normal e olha que nem aprontava tanto assim.

      No meu caso quem resolvia a parada era minha mãe e ela adorava morder e assoprar… hahaha. Valeu mesmo!